Revista MÍDIAComDEMOCRACIA. BOMFIM, Elton. Morte anunciada? Junho/2006, nº 2.
Daniela A.
A matéria de Elton Bomfim trata do processo de digitalização da radiodifusão brasileira. Ele começa afirmando que o modelo de fonte de receita das emissoras de TV aberta vem sendo o mesmo desde a década de 1960. Até hoje, a publicidade no intervalo ou até no meio da programação (merchandising) é que fornece a maior parte da verba dos canais de TV e das rádios. Ocorre um círculo vicioso nesse modelo: a população paga a propaganda a que assiste no futuro produto que irá comprar, pois as empresas adicionam ao preço final o investimento na publicidade. Além disso, segundo Valério Brittos, professor na pós-graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e Doutor pela UFBA, o receptor sofre um estímulo ao consumismo através da TV. Bomfim alerta que os receptores, dessa forma, sustentam a infra-estrutura das comunicações e dos conteúdos nela mostrados.
Com a transição para as tecnologias digitais haverá não só o fim das transmissões analógicas, como a provável falência desse modelo de fonte de verba. Ele não poderá ser a única fonte de receita da radiodifusão para que ela sobreviva às tecnologias digitais que serão introduzidas. Como as emissoras disputam cada vez mais com novas mídias o “bolo publicitário” (total de investimentos de propaganda nos meios de comunicação), esse mercado já vem se esgotando há algum tempo. E o que agrava esse quadro é o fato de que 70% desse bolo se mantém com o principal grupo de mídia brasileiro.
Se a população já paga um preço alto para assistir à TV aberta hoje em dia – cerca de R$203,44 anuais por cada lar do Brasil, segundo pesquisa de março do FNDC – com a transição para o mundo digital, poderá pagar R$287 bilhões no total ao longo de quinze anos, de acordo com pesquisa do CPqD (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento em Telecomunicações). Quinze anos é o tempo mínimo para o fim das transmissões analógicas.
Esses R$287 bilhões incluem os gastos com os novos equipamentos (Unidade Receptora-decodificadora – URD – e antena), a assinatura do canal de interatividade, além da soma dos cerca de R$203,44 que cada domicílio paga por ano.
Já para as emissoras, os gastos iniciais com a televisão digital podem chegar a R$5,5 bilhões nos primeiros cinco anos – R$4,37 bilhões para as privadas e R$1,25 bilhões para as públicas – segundo o CPqD. Logo, o maior obstáculo será para novas instituições e canais educativo-culturais, comunitários, legislativos e universitários.
Quanto à interatividade, o CPqD estimou em R$352,795 milhões o investimento para que 2511 pontos de banda larga sejam implantados. Com esses pontos, ter-se-á uma “cobertura nacional de canal de retorno sem-fio”, a tecnologia WiMAX, que possibilitará os serviços de interatividade do SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital).
Haveria uma forma de reduzir os gastos das emissoras. Em simulações do CPqD, o operador de rede (empresa de telecomunicações que constrói, gerência e mantém uma rede de transmissão) poderia ser usada por uma ou mais emissoras. Sem contar o aluguel da infra-estrutura dessa rede, o valor cairia, para as TVs privadas, para menos de R$4 bilhões, e para as públicas, para 4,79 milhões.
No quadro entitulado “Sociedade forma Frente Nacional por um Sistema Democrático de Rádio e TV Digital”, é destacada a preocupação desse grupo com a digitalização do rádio e da televisão. Formado por 60 entidades da sociedade brasileira, o grupo, durante uma plenária na Câmara dos Deputados, em abril, mostrou principalmente as seguintes preocupações: democratizar o debate sobre a inserção da tecnologia digital, possibilitar a participação da sociedade na elaboração e formatação da implantação do sistema e desenvolver um sistema semelhante ao SBTVD para o rádio. A Frente ainda protocolou, em 11 de abril, junto à Casa Civil da Presidência da Republica, um ofício que propõe a promoção de uma campanha informativa na mídia do brasil, para que seja esclarecido à população o processo de digitalização da TV.
Pode-se notar por essa matéria que não será fácil inserir as tecnologias digitais nas televisões brasileiras, porque, por fim, o autor lembra que já que 70% do bolo publicitário está nas mãos da Rede Globo, sobram somente R$2,85 bilhões para as outras 340 emissoras brasileiras. Todas elas disputariam essa verba para pagar seus custos fixos e ainda investir nos novos equipamentos digitais.
Bomfim esclareceu muitas dúvidas e forneceu dados muito relevantes para os interessados na inserção da TV digital no Brasil. Porém, não abordou os pontos positivos dessa mudança. Consideramos que alguns deles são a possibilidade de o Brasil se equiparar a países desenvolvidos, em termos desse tipo de tecnologia, e as novas relações comunicacionais que provavelmente surgirão. Sua matéria enfatizou o lado financeiro da transição, que sem dúvida é importante, porém sem comentar outras possíveis mudanças que essa nova mídia acarretará.